BIOMASSA, ENERGIA E AMBIENTE

Patrique Savi e Dr. Jairo Marchesan

Por Pensando Bem 03/06/2022 - 19:19 hs
BIOMASSA, ENERGIA E AMBIENTE
ILUSTRAÇÃO

            No Brasil, assim como em outras partes do planeta, é crescente a procura por energia, principalmente, a elétrica. Por outro lado, é crescente também o consumo de energias não renováveis e de maior impacto ambiental, provenientes, fundamentalmente, da queima de combustíveis fósseis não renováveis, como, por exemplo, o carvão mineral, o gás natural e o petróleo, compondo, respectivamente, 37%, 24% e 3% da matriz elétrica mundial. Especificamente no Brasil, essa composição é de 3%, 8% e 2%, respectivamente. Fonte: https://www.epe.gov.br/pt/abcdenergia/matriz-energetica-e-eletrica). Do jeito que está a organização social, produtiva e econômica vinculada ao modelo capitalista de desenvolvimento, de fato, há a necessidade de uso dessas fontes de energia. No entanto, reconhece-se que o setor elétrico, apesar de essencial, também é responsável por impactos ambientais.

            As mudanças climáticas são uma das consequências da exploração e consumo dos recursos energéticos fósseis, caracterizando-se como uma iminente ameaça para os meios social e ambiental, em nível global. Observa-se que o clima alterou significativamente, sendo que, prova disso, são as mudanças nas concentrações atmosféricas de diversos gases que capturam a radiação infravermelha da superfície da Terra, provocando o agravamento do efeito estufa.

O efeito estufa é necessário para a regulação da temperatura e sustentação da vida na Terra, mas a mudança nas concentrações dos gases na atmosfera do planeta tende a alterar, principalmente, o regime de chuvas e a ocorrência de eventos extremos, como ciclones, vendavais, inundações e ondas de calor, devido aos desequilíbrios climáticos, exigindo maior e mais rápida capacidade de resiliência da sociedade humana para enfrentar estes distúrbios.

            Como tentativa de solucionar esses problemas, deve-se operacionalizar, de forma pragmática, as principais ferramentas disponíveis hoje para atingir objetivos a curto e médio prazo, que englobam a racionalização de todas as formas de consumo, principalmente aquelas descritas pelos 5Rs (Rejeitar, Repensar, Reduzir, Reutilizar e Reciclar), o aumento da eficiência energética e a utilização de fontes renováveis de energia. Os objetivos almejados dão a chance de manter o aumento médio da temperatura global abaixo do limite de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Caso o aumento da temperatura ultrapasse os 1,5°C, os impactos da mudança do clima serão incontroláveis, perigosos e severos, de acordo com relatórios recentes do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas - IPCC, grupo de cientistas que monitora e assessora toda a ciência global relacionada às mudanças climáticas. A maior ocorrência de incêndios florestais decorrentes de ondas de calor cada vez mais frequentes e o aumento do nível dos mares devido ao degelo nos polos são outras catástrofes que poderão materializar-se caso o aquecimento descontrolado do planeta não seja travado. https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/07/SPM-Portuguese-version.pdf).

            Atualmente, as fontes de energia limpas provenientes do sol (fotovoltaica) e do vento (eólica) estão cada vez mais sendo utilizadas pela sociedade humana. Porém, pouco se tem colocado em pauta a utilização de um combustível renovável e muito abundante, principalmente, no Brasil: a biomassa. A biomassa é descrita como toda matéria orgânica, de origem vegetal ou animal, que pode ser utilizada para produção de energia, principalmente, através da sua combustão. A principal vantagem inerente à utilização da biomassa refere-se à emissão de quantidade muito inferior de gases poluentes em comparação com as fontes tradicionais, como gás natural, petróleo e carvão mineral, pois é composta por elementos naturais orgânicos, com capacidade de regeneração.

            Com o avanço e modernização das tecnologias ao longo dos anos, a produção de energia através da utilização da biomassa vem sendo aperfeiçoada constantemente, possibilitando o desenvolvimento de novas formas de uso, sendo, atualmente, amplamente utilizada em escala industrial, sobretudo, para alimentação de caldeiras, em que o vapor produzido move turbogeradores para conversão em energia elétrica.

            A lenha, o bagaço de cana-de-açúcar, o cavaco de madeira e outros resíduos agrícolas, como os dejetos animais, além do lodo de estações de tratamento de efluentes, são as fontes mais comuns de biomassa. O aproveitamento da biomassa no Brasil, principalmente, a de origem florestal (lenha e cavaco), deve ou pode constituir-se como uma das prioridades para uma das alternativas energéticas limpa, sustentável e de baixo custo, pois utiliza elementos naturais que possuem capacidade de regeneração. Através do Ciclo do Carbono, as plantas e as árvores removem o dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, para convertê-lo em compostos orgânicos que constituem as suas estruturas, através do processo da fotossíntese.

            A queima da biomassa na produção de energia elétrica devolve à atmosfera do planeta o CO2 retido em suas estruturas. No entanto, como nos moldes de uma "economia circular", o crescimento de novas plantas e árvores mantém o Ciclo do Carbono atmosférico em equilíbrio, através da reabsorção desse CO2 (fotossíntese). Esse ciclo de carbono "zero" ou "neutro" pode ser repetido, ou regenerado, infinitamente. Para isso, a biomassa precisa passar pelo período de regeneração para ser utilizada nos ciclos subsequentes.

            Os compromissos com o clima do planeta assumidos pelo Brasil em Glasgow, Escócia, na última Conferência das Nações Unidas Sobre Mudanças Climáticas (COP 26), em 2021, de redução voluntária de 50% das suas emissões de CO2 até 2030, especialmente, através da diminuição das queimadas, do desmatamento na região amazônica e da utilização de combustíveis fósseis, reforçam a estratégia brasileira para responder às alterações climáticas, levando em consideração a necessidade urgente de aprimorar a eficiência energética, valorizando a adoção das energias renováveis, principalmente, aquela derivada da biomassa. Enquanto no mundo a utilização de biomassa para produção de energia elétrica fica em torno de 3%, no Brasil, essa mesma fonte renovável já compõe 10% da matriz elétrica https://www.epe.gov.br/pt/abcdenergia/matriz-energetica-e-eletrica).

Para atender esses objetivos e suprir a crescente demanda por energia, deve ser incentivada e colocada em prática a diversificação das fontes de aproveitamento de recursos renováveis, notadamente aquelas provenientes da biomassa florestal ou agrícola, como, por exemplo, a madeira de pinus e eucalipto, o bagaço da cana-de-açúcar, dentre outros, reduzindo, assim, a dependência de energia primária, tais como do gás natural, do carvão e do petróleo. O Brasil tem enorme potencial de aproveitamento da biomassa para fins energéticos, pois é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar e um dos maiores em área útil com cultivo de madeira plantada ou reflorestamentos.

            Nessa direção, há a necessidade de incentivos governamentais, porém, ações da iniciativa privada no desenvolvimento de tecnologias e práticas para aproveitamento da biomassa também são importantes. Os países podem usar a biomassa como uma das possibilidades para a geração de postos de trabalho e adaptarem-se às mudanças do clima por meio da proteção ambiental. Tais ações poderão aliviar a pressão sobre os bens naturais finitos e reduzir os custos de mitigação de emissões de carbono, pois a queima da biomassa libera uma quantidade menor de gases poluentes na atmosfera.

            A criação de uma legislação para estimular, de forma sustentável, a micro e minigeração distribuída de energia, como a lei N° 14300, de 06 de janeiro de 2022, que financia a instalação de sistemas e outorga aos consumidores o direito de produzirem a própria energia que utilizam, a partir de fontes renováveis (solar, eólica e biomassa), é um exemplo bem sucedido que permite reduzir os custos da cadeia de suprimentos, notadamente no que se refere às questões de construção e manutenção das extensas redes de distribuição, além de fixar de forma permanente a utilização de energia limpa na matriz elétrica nacional.

            Portanto, utilizar energias limpas e promover a eficiência energética por intermédio da biomassa pode possibilitar novas oportunidades de negócios e de geração de empregos, além de colocar o país na vanguarda das questões de preservação ambiental e contribuir na promoção do desenvolvimento sustentável.

 

Patrique Savi - Engenheiro Ambiental e Sanitarista - Egresso da Universidade do Contestado (UnC).E-mail: patrique_savi@hotmail.com.br

 

Dr. Jairo Marchesan - Docente do Programa de Mestrado e Doutorado em Desenvolvimento Regional e do Programa de Mestrado Profissional em Engenharia Civil, Sanitária e Ambiental da Universidade do Contestado (UnC).

E-mail: jairo@unc.br