AÇÃO MISSIONÁRIA E EDUCAÇÃO

Por: Reginaldo Antonio Marques dos Santos

AÇÃO MISSIONÁRIA E EDUCAÇÃO
Painel de azulejos do artesão Eduardo Gomes. Salvador - BA

                Laerte Ramos de Carvalho (1922-1972) foi professor de História e Filosofia da Educação na Faculdade de Filosofia da USP, Reitor da Universidade de Brasília. Desenvolveu atividades como Jornalista - para o Estado de S. Paulo – e historiador. Foi o primeiro diretor da Faculdade de Educação da USP (1969). Era membro da Sociedade Paulista de Escritores . Dentre os destaques de suas publicações está o ensaio Ação Missionária e Educação resenhado a seguir.

                Inicialmente, o professor Laerte trata sobre os Primeiros núcleos de penetração missionária. Por um lado, se apresenta o propósito catequético/missionário da Companhia de Jesus, por outro a “política colonizadora inaugurada por D. João III” (CARVALHO, 1995, p. 156). A proposta não era necessariamente educar, primeiro, catequisar, converter a alma dos indígenas. Diante desse contexto, o Pe. Manuel da Nóbrega que chega à Bahia em 1549 dá os primeiros passos para a organização de uma escola.

                Chegando em São Vicente em 1553, Nóbrega ficou vislumbrado com o trabalho de Leonardo Nunes, a boa casa, a igreja, o pavilhão de taipa ali erguidos. “A Bahia e São Vicente são foram os primeiros núcleos bem-sucedidos de penetração missionária” (CARVALHO, 1995, p. 156). Com a transferência de alguns filhos de indígenas para uma casa/escola nos campos de Piratininga em 1554 onde estudam gramática e servem de intérpretes. 

                Ao mesmo tempo, neste local, começam a batizar, casar e viver como cristãos. “Com missa, conversões, batismos e casamentos plantaram os jesuítas no espaço planaltino o marco de uma conquista das terras interiores” (CARVALHO, 1995, p. 157). Tais estudos e práticas jesuíticas seguiram até o ano da visita de Inácio de Azevedo (1566), o qual ordenou a reabertura do colégio, sendo o primeiro canonicamente constituído. Já no Rio de Janeiro, o colégio inaugura as aulas somente no ano de 1573.

                Carvalho chama a atenção para a figura de Manoel da Nóbrega diante de todas as dificuldades enfrentadas pela Companhia de Jesus. “Nóbrega procurou desenvolver uma política de posse da terra e de escravos, política essa que poderia assegurar a continuidade dos trabalhos empreendidos pelos jesuítas” (CARVALHO, 1995, p. 158). Todavia, tal política encontrará na sequência oposição formal apresentada pelo autor em Oposição do cânone jesuítico à posse da terra e de escravos.

                Santo Inácio proibiu a Companhia de Jesus de aceitar os encargos das instituições de órfãos e, em 1556 são aprovadas as Constituições da Companhia. De acordo com tais textos, “os membros da Companhia de Jesus deveriam fazer um voto de pobreza, segundo o qual ninguém poderia ter renda alguma para o seu sustento ou por outra coisa” (CARVALHO, 1995, p. 159). A exceção neste caso, são os colégios e noviciados que para o sustento poderiam ter renda própria.

                A resposta de Nóbrega à Inácio apresentando as dificuldades enfrentadas, contribuíram forçosamente para a criação canônica dos colégios e, ao mesmo tempo para aproximar ainda mais os ideais da Companhia com os da Coroa. Todavia, a ousadia de Nóbrega na criação dos estabelecimentos missionários não se efetivou de imediato. “A simples posse da terra e de escravos não constituía, nas condições do tempo, sustentáculo duradouro para os empreendimentos missionários” (CARVALHO, 1995, p. 160). A solução para o amparo catequético e missionário é descrito por Carvalho em A redizima e o desenvolvimento das missões jesuíticas.

                O padrão de redízima dos dízimos fixada por D. Sebastião a partir de alvará de 1564 fornecia os recursos necessários para o andamento dos trabalhos (empreendimentos) missionários dos jesuítas passando a contar com um programa intenso de apostolado tanto na América, como na Europa e Ásia. “Amparadas financeiramente pelo auxílio real, cresceram e se multiplicaram as casas da Companhia de Jesus” (CARVALHO, 1995, p. 160). Nos séculos seguintes, se intensificam os trabalhos e a criação dos colégios. Estes, “de acordo com o Padre Serafim Leite eram gratuitos e públicos” (CARVALHO, 1995, p. 160). Não obstante, no Brasil o objetivo principal segue sendo o de catequisar, formar sacerdotes e salvar as almas.

                Na parte final do ensaio – A organização dos colégios -, o autor cita inicialmente, o documento que rege a operacionalização destes espaços, o “Ratio Studiorum fala de cinco classes inferiores: uma de retórica, outra de humanidades e três de Gramática” (CARVALHO, 1995, p. 161). Tanto os estudos preconizados pela Companhia, quanto sua íntima relação com os interesses colonizadores da Coroa foram interrompidos com a expulsão dos jesuítas. Conclui Carvalho que: “Inicia-se, então, uma série de reformas educacionais nas quais predominou novo estilo de governo com marcante tonalidade regalista” (CARVALHO, 1995, p. 162).

                A análise do professor Laerte apresenta fatores cruciais da relação entre missão e educação. Por um lado, os interesses catequéticos dos jesuítas e por outro, os interesses colonizadores da coroa. Neste contexto, o que se entende por educação é o resultado de ambos interesses. Não obstante, o empreendimento jesuítico somente prospera de fato, com recursos financeiros, inicialmente compreendido como investimento. Nesta direção, se a educação é forjada em um processo mercantil, é essencial buscar sua essência. O que se entende por “educação”? Qual é sua “missão” hoje?



SOBRE:

Reginaldo Antonio Marques dos Santos é Professor de Sociologia na EEB Frei Menandro Kamps e EEB General Osório. Mestrando em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Referência

CARVALHO, L.R. Ação Missionária e educação. In: HOLLANDA, S.B. História geral da civilização brasileira. Tomo I, v. 1, livro 3º, cap. IV, 1995, p. 156-162. Acesse: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/carvalho-laerte-ramos-de