Chico Mendes: o símbolo da resistência dos seringais

Krishna Schneider Treml – Doutoranda em Desenvolvimento Regional pela Universidade do Contestado – UnC Dr. Jairo Marchesan. Docente do Programa de Mestrado e Doutorado em Desenvolvimento Regional e do Programa de Mestrado Profissional em Engenharia Civil, Sanitária e Ambiental da Universidade do Contestado (UnC). E-mail: jairo@unc.br

Chico Mendes: o símbolo da resistência dos seringais
Divulgação

Francisco Alves Mendes Filho (Chico Mendes) nasceu em 15 de dezembro de 1944, no Seringal Porto Rico, localizado no estado do Acre, em um ambiente simples, modesto, situado entre as florestas nativas. Desde os 9 anos de idade “cortava” seringueiras e produzia borracha e castanha, acompanhado do pai, também chamado Francisco, dos índios e dos bichos da floresta. Aos 44 anos era um homem sábio, conhecedor dos mistérios e mitos da mata e do povo amazônico.

Na década de 1970, com a significativa migração dos nordestinos que fugiam da seca, o Acre recebeu uma intensa mão de obra e se tornou um grande produtor de borracha e uma referência ecológica, até que o governo militar brasileiro, mediante financiamentos e incentivos fiscais ao desenvolvimento da atividade agropecuária, recebeu visitantes oriundos dos Estados do Sul, Sudeste e Centro Oeste do Brasil, para a criação de gado naquele estado brasileiro. Na mesma ocasião, os recém-chegados adquiriam milhões de hectares de terras acreanas com inúmeras famílias de seringueiros em seu interior. Estima-se que 40 (quarenta) mil pessoas foram atingidas por esse movimento migratório[1].

Naquele contexto histórico, o fomento ao desenvolvimentismo economicista estava intrinsecamente vinculado ao exclusivo "progresso econômico". O projeto desenvolvimentista nacional e os processos de incentivos à aquisição de terras no Acre originaram conflitos internos, grilagens de terras, xenofobia aos “paulistas”, degradação ambiental e segregação social na Amazônia.

A disseminação da ideia do crescimento econômico a qualquer custo estava enraizada em todo o território brasileiro, momento em que muitas pessoas se insurgiram desfavoravelmente, por intermédio de Movimentos Sociais e ambientais, dentre elas, o movimento dos seringueiros, liderado pelo memorável Chico Mendes, dentre os anos de 1970 a 1990, no Estado do Acre.

Chico Mendes insurgiu-se e lutou em defesa das reservas indígenas, pelos assentamentos extrativistas, pelos direitos dos trabalhadores rurais e pelas florestas. Condenava e organizava resistências às aterrorizantes visitas dos jagunços, advogados, capatazes e policiais às famílias de seringueiros, muitas vezes analfabetas, as quais tinham o intuito de fazê-las abandonarem suas moradas, por intermédio de assinaturas de acordos e demais documentos ilícitos que favorecessem e possibilitassem a implementação dos grandes projetos econômicos naquele território.

Nessa luta, no ano de 1985, Chico Mendes instituiu o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), que discutia e evidenciava temas como reserva extrativista, exploração comunitária e racional da biodiversidade amazônica, Unidades de Conservação, demarcação de áreas indígenas, estudos de impacto ambiental nas estradas e outros projetos na região. Essas iniciativas representaram forte ameaça aos interesses dos latifundiários locais e regionais, razão pela qual Chico teve sua morte anunciada.

Em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi assassinado com um tiro de escopeta no peito, no quintal de sua casa, no pequeno e histórico município de Xapuri, pelo peão Darcy Alves, filho do fazendeiro Darli Alves. A morte do ativista socioambiental em frente aos seus familiares, na sua humilde morada, simbolizou um marco, ou seja, um notório acontecimento nacional e internacional que impactou significativamente o cenário dos seringueiros acreanos à época.

Após a morte de Chico Mendes foram instituídas as Reservas Extrativistas Amazônicas, as quais estabeleceram aos seringueiros a possibilidade de obter o sustento da floresta nativa, bem como o direito de permanecerem vivendo com suas famílias em suas residências, no interior da mata. Atualmente, esses povos mantêm fulgentes os ensinamentos deixados por Chico Mendes e defendem vigorosamente o desenvolvimento sustentável, com base na exploração racional da biodiversidade amazônica. No Estado do Acre, por exemplo, mais de 50% das terras estão protegidas por Unidades de Conservação, que possibilitam a manutenção da vida em plena e intensa integração com a natureza. (SILVEIRA, E. M. Chico Mendes: coragem e ternura na resistência acreana. Desenvolvimento e Meio ambiente, v. 48, Edição especial: 30 Anos do Legado de Chico Mendes, p. 7-24, novembro 2018).

Por fim, importante ressaltar que o legado mais significativo que tem se perpetuado desde a morte de Chico Mendes, é o exemplo edificante da luta socioambiental em defesa da utilização sustentável das florestas amazônicas e a resistência incansável às articulações e estratégias adotadas em prol das pessoas e da conservação do ambiente. Um exemplo amazônico que alcançou o mundo!



[1] Em 1979, a superintendência local do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) publicou um relatório dando nome a alguns pretensos novos donos do Acre. O documento registrava 218 latifúndios por dimensão que somam 5,8 milhões de hectares e 3.102 latifúndios por exploração, abrangendo 6,4 milhões de hectares. Finaliza afirmando que “80% das terras acreanas se encontram nas mãos de latifundiários, grileiros e especuladores” (SILVEIRA, E. M. Chico Mendes: coragem e ternura na resistência acreana. Desenvolvimento e Meio Ambiente, v. 48, Edição especial: 30 Anos do Legado de Chico Mendes, p. 7-24, novembro 2018).