Qualidade de vida: perspectivas e expectativas

Cristiélen dos Santos

Qualidade de vida: perspectivas e expectativas
Ilustração

                Que o ano de 2020 está sendo atípico para todos, é consenso. O contexto pandêmico em que a sociedade global se encontra acabou acentuando dificuldades, desigualdades e sobrecarregando a saúde psicológica dos indivíduos. Uma mudança na rotina de forma abrupta desencadeou rumores de perspectivas e expectativas sobre os dias que ainda virão. Como manter a qualidade de vida nessa conjuntura?

                Analisando conceitualmente, a expressão “qualidade de vida” de acordo com a Organização Mundial da Saúde - OMS corresponde a “percepção do indivíduo de sua inserção na vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações” ( WHOQOL, 1994). Portanto, não se restringe à tríade nutrição, atividade física e saúde, embora considere esses fatores, mas permite considerar o bem-estar geral do indivíduo abrangendo outros fatores para além do físico, como a condição psicológica, espiritual, e aspectos sociais que vão desde os relacionamentos até mesmo o acesso a serviços garantidos como sendo direitos fundamentais, como a educação, e ainda as condições inerentes ao local onde se vive, incluindo saneamento básico.

                Partindo desses pressupostos, é irrisório o pensamento de que somente com o contexto pandêmico de 2020 que a preocupação com qualidade de vida deve ser abordada enfaticamente. Considerando os indicadores do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, parâmetro de medida para a qualidade de vida, o Brasil de acordo com o ranking de IDH global de 2019 está em 79º lugar entre os 189 países listados[1]. De acordo com o próprio Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 2019), o IDH do Brasil desde 1990 mantém tendência de avanço, que corresponde a um aumento de 24% considerando os dados de até 2018, mas em contrapartida, as desigualdades permanecem[2].

                É importante considerar que o IDH sustenta-se em índices de seus três pilares: a saúde, educação e renda. As desigualdades podem ser analisadas com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de acordo com dados da pesquisa divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2019) como verificado ao constatar que a renda do 1% mais rico no Brasil é 34 vezes maior que da metade mais pobre[3], ou considerando ainda pelo fator renda a discrepância entre o rendimento médio mensal entre homens e mulheres, R$ 2519,00 e R$ 1991,00[4] respectivamente. Quando se trata de acesso à educação percebem-se avanços, mas há perceptível desigualdade de raça e por região, segundo Pnad (2018) pretos ou pardos tinham em média dois anos de estudo a menos do que brancos e as taxas de analfabetismo correspondem a 10,3% dos idosos brancos e 27,5% dos pretos ou pardos. Analisando a Taxa ajustada de frequência escolar líquida de alunos entre 15 e 17 anos, a região Nordeste é a que possui menores indicadores·· .

                Portanto, há avanços, mas não pode se fechar os olhos para discrepâncias em um país de proporção continental. O desenvolvimento humano não se limita a dados estatísticos porque esses correspondem a médias que não refletem necessariamente as condições reais do nosso contexto social. A qualidade de vida não é assunto que urge agora em 2020 apesar da Pandemia do COVID fazer repensar a mudança de hábitos, mas é preocupação contínua na agenda da Organização das Nações Unidas (ONU) que visa cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)[5] em escala global – e portanto, deveria ser norte de políticas públicas em todos os lugares do mundo.

                O que podemos projetar quanto qualidade de vida? Primeiro, reconhecer que os aspectos que a caracterizam são amplos, e apesar de existir alternativas que minimizam o mal-estar cotidiano, há sim responsabilidade por parte do Estado em oferecer e garantir o acesso ao básico para a assistência de uma vida digna. Não se trata de eximir o individuo de suas responsabilidades, mas dessa forma corrigir alguma fratura histórica que social e culturalmente prejudicou as possibilidades de desenvolvimento, igualdade e ascensão na melhoria da qualidade de vida do sujeito.

                Evidente que hábitos saudáveis contribuem efetivamente para a evolução desse cenário, mas em uma perspectiva de prioridades, acesso à água potável continua sendo mais urgente que fazer caminhadas de sessenta minutos por dia. Ou ainda, promover alternativas de acesso à educação de qualidade e alfabetização deve ser mais significativo que “maratonar” séries estrangeiras legendadas na quarentena.

                Sim, este texto não trata de uma lista com afazeres que possam contribuir com a melhora em sua qualidade de vida: mais que isso, é um chamado à reflexão acerca de uma realidade que possa passar despercebida para quem pode fazer um confere em seu ckeck list diário de indicadores de hábitos saudáveis.