VENDILHÕES DA CESTA BÁSICA

Alexandre Douvan*

VENDILHÕES DA CESTA BÁSICA
Ilustração - O Sermão da Montanha.

        A caridade é tomada unanimemente como um gesto nobre, engrandecedor. Há mais de dois milênios os indivíduos são conduzidos a chamada «boa ação», pela qual os menos afortunados seriam os beneficiários. De fato, este é um bom exemplo da moral cristã: socialização, partilha dos bens em nome da produção de um apetecível ambiente de convívio. No entanto, a própria Bíblia ressalva que a boa ação, para que seja de fato boa, deve ser realizada no sigilo da privacidade; do contrário, quando realizado em um espaço público, não passa de uma mera promoção de interesses. «Guardai-vos de fazer vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles: aliás não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus.» (O Sermão da Montanha. Mateus 6).

        Faz-se necessário que concebamos o conceito de público e privado para que tenhamos comum entendimento antes de prosseguirmos a reflexão. Para tanto, a filósofa e cientista política Hannah Arendt (1906-1975) nos direciona de maneira ímpar. Arendt traçou os principais movimentos da relação humana na história em sua obra intitulada A Condição Humana (1958), um marco do pensamento contemporâneo. Sobre a Esfera Pública, Arendt afirma que significa, «em primeiro lugar, que tudo o que vem a público pode ser visto e ouvido por todos e tem a maior divulgação possível». A Esfera Pública apresenta-se como um meio pelo qual as relações políticas e entre indivíduos, visando decisões pelas quais todos serão atingidos no contexto do Estado. Nesta ótica, o público representa tudo aquilo que é comum, que é exposto a todos. Não nos delongaremos a explanar a função do Estado e suas acepções em cada contexto pois o que interessa no momento é a compreensão da dicotomia entre público e privado.

        No que tange ao privado, podemos aferir que este se refere ao indivíduo e a sua intimidade; ao encontro do homem com ele mesmo ou ao âmago de suas relações pessoais. Não consideraremos neste artigo a relação público-privado evidente na temática da propriedade privada; e sim a privação ou exibição das ações.

        Partindo das definições acima apresentadas e do trecho retirado d’O Sermão da Montanha, pode-se afirmar que a prática da doutrina cristã é falseada pelas próprias instituições que possuem legitimidade popular para a difusão dos ideais. Isto ocorre principalmente (mas não somente) em três linhas: 1) na vanglória e difusão católica de seus feitos em nome dos miseráveis; 2) na ética da prosperidade como atrativo aos cultos evangélicos; 3) na ação dos fieis, independentemente da religião, em busca da redenção e não do auxílio por si só.

        Tomemos cada um separadamente. O primeiro ponto evidencia uma contradição gritante entre os próprios difusores históricos dos ideais e das atitudes tomadas. Por meio de seus próprios canais de mídia e por outros meios de acesso à massa sempre se busca divulgar os trabalhos realizados ou, então, dentro da igreja fala-se sobre suas próprias realizações. Obviamente a instituição desenvolve trabalhos visando pessoas necessitadas, afinal é uma boa tática para angariar novas ovelhas para o rebanho: valer-se da carência para surgir como um messias.

        Enquanto no primeiro caso a corruptibilidade do caráter é nítida há quase dois mil anos, o segundo explicita ainda mais a ignorância voluntária a um dos preceitos mais difusos daquela que podemos chamar de «carta magna» do cristianismo, a Bíblia. Tais instituições demonstram-se comerciantes de estilos de vida. Comprando determinados produtos vendidos pela própria igreja (tais como toalhas ditas ungidas, terrenos e chaves do céu, óleos santos, pagar o dízimo em dia, além uma infinidade de outras coisas), o fiel terá uma vida boa e próspera. Por suas correntes penetrarem os mais diversos campos, pastores, bispos e apóstolos garantem que curarão doenças e trarão riquezas. Por outro lado, não cessam os pedidos – coercitivos pela dominação ideológica que exercem – de doações. Igrejas, seus líderes e asseclas enriquecem financeiramente, contrariando o princípio básico do cristianismo, que é a doação e entrega como valor superior ao enriquecimento pessoal. Tais pastores, de igrejas que aqui não serão citadas para que não se faça propaganda para essas empresas, adquiriram tanta influência que hoje têm membros nos Três Poderes. Bem queria acreditar que o não-seguimento daquilo que pregam se deu por uma má interpretação da literatura sacra aqui referenciada, fruto de um analfabetismo funcional, mas não é bem assim. Pregam o que bem entendem para que seus comércios prosperem. Tais líderes dirão aos seus fieis que este artigo e quem o escreve são hereges e que não merecem ser creditados. De fato serão ouvidos, pois este escrito destina-se aos poucos capazes de viver de forma diferente de uma ovelha.

        O terceiro ponto é um dos mais recorrentes e de fácil observação. Muito do que observamos em diferentes doutrinas que pregam a «salvação», são pessoas afirmando querer ir ao chamado Paraíso (Mundo das Ideias, a quem preferir). Entretanto, caso questionadas sobre o que as motiva a tanto, as respostas geralmente não são bastantes. Fato é que a busca pela chamada salvação se trata do medo da perdição. O que move tais grupos não é determinado pela força de um deus, mas sim pelo medo da dor ou de quaisquer criaturas místicas que possam vir a atormentar. Nesta linha, fazer o bem esperando qualquer benesse futura é hipocrisia segundo qualquer análise bíblica que se preze. Ajudar pessoas, fazer o bem para compensar erros passados também não é lógico. A boa ação deve partir do indivíduo por meio da compreensão da atitude como tendo valor elevado.

        Tomar o lugar das ações sociais que os governos devem obrigatoriamente fazer, entregar cestas básicas etc. não é solucionar o problema, mas tão somente trazer visibilidade para si. Quem dera se tamanho esforço fosse despendido para garantir que as instâncias governamentais cumpram com suas obrigações.

        É certo que a religião é fator operante na vida de pessoas, crentes ou não, pois encontra-se na política, nos modelos de organização que utilizamos e até mesmo no calendário. Mesmo assim, vale a ressalva de que necessitar de um corpo corrupto para encontrar valores não é um caminho aconselhável.


Alexandre Douvan - Acadêmico de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Membro do Grupo de Estudos em Ciências Humanas – Mentes Inquietas.