O QUE HÁ DE ERRADO COM A FELICIDADE?

Reginaldo Antonio Marques dos Santos

O QUE HÁ DE ERRADO COM A FELICIDADE?
ILUSTRAÇÃO

                O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017) na introdução de sua obra “A arte da vida” faz um questionamento aparentemente sem sentido: “O que há de errado com a felicidade?”. No entanto, a provocação do autor sugere exatamente uma pausa em nossa busca constante por aquilo que entendemos por felicidade. Parece estar claro que desenvolvemos muitas técnicas e que muitas pessoas enriqueceram nos últimos tempos, mas, estudos demonstram que um aumento da riqueza não significa necessariamente que as pessoas sintam-se mais felizes. Os números de casos de suicídios, depressão e de pessoas que consomem medicamentos em larga escala diariamente contribuem para refletir sobre tal situação. Para Bauman, a busca excessiva dos seres humanos por felicidade tem sido em grande medida a responsável pelo próprio fracasso.

                É provável que lideranças políticas, seus gurus e porta-vozes considerem íntima a relação entre crescimento econômico e felicidade, assim como, a maioria das pessoas admita tratar-se de uma verdade inquestionável. Bauman porém, cita pesquisadores como Robert Laine (The loss of happinnes in market democracies) e Michael Rustin (What is wrong with happiness?), seus estudos demonstram que o aumento da renda das pessoas não funciona para deixá-las mais felizes. Na mesma proporção crescem números de roubos, tráfico de drogas, corrupção e inúmeras sensações de incertezas que sufocam o cotidiano. As técnicas da economia de mercado, da forma de organização do estado medem tudo, há previsões para o PIB (Produto Interno Bruto), para a taxa SELIC (Sistema Especial de Liquidação de Custódia), para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), dentre outras. Olhando para tais condições e todo o potencial de análise econômica poderia afirmar que a felicidade está à disposição nas prateleiras e que depende da quantidade de dinheiro que dispusermos para tê-la conosco o maior tempo possível.

                Todavia, o tempo reside fora do agora, na eterna espera, ou na tentativa de aprisionamento. Aguardando o próximo feriado, a data da viagem, o fim da quarentena, as curas para todos os males, o aumento do salário, a chegada do aniversário, da páscoa, do natal, das férias, etc. As redes sociais, a partir de algoritmos nela dispostos, auxiliam nesta fuga do próprio tempo, da solidão, do medo, de tudo que represente dor, principalmente a diversidade. Ao mesmo tempo, permite ao usuário permanecer fechado, seguro na própria bolha, onde todos vestem as mesmas tendências, rezam aos mesmos messias, torcem pelos mesmos times e tratam a política com as mesmas barreiras, sem permitir qualquer pensamento contrário. Ou seja, contribuem para um esvaziamento dos debates, da política e principalmente, para esgotar o tempo, inimigo das horas vagas.

                Bens que o dinheiro pode comprar se encontram em lojas, no mercado e exigem tempo. Mas, como fica a felicidade nesse contexto? A provocação de Bauman questionando algo de errado com esta, chama a atenção para uma reflexão mais profunda sobre como vemos e entendemos a felicidade humana. Ela não está precificada no mercado, não pode ser adquirida nas lojas com débito ou crédito. Amor, amizade, reconhecimento, simpatia, respeito dos colegas de trabalho e outras pessoas, acompanhar os filhos, pais, avós, ajudar um vizinho, são alguns bens não-compráveis. Talvez, nessa busca incessante pela felicidade, que retém muito tempo, esteja faltando tempo para ser feliz, para aproveitar o agora, para cultivar boas relações sociais, para fazer da “arte da vida” uma obra de arte.

 

REFERÊNCIA:

 

BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.


Reginaldo Antonio Marques dos Santos é Professor de Sociologia da rede pública estadual de Santa Catarina. Membro do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas –CNPq - UNC.